Produtos que podem ser personalizados para reproduzir a aparência de canetas emagrecedoras conhecidas, como Ozempic e Mounjaro, estão sendo comercializados pela internet em uma plataforma chinesa de comércio eletrônico com possibilidade de envio para o Brasil.
Entre os itens encontrados estão caixas, rótulos e canetas injetoras vazias, que podem ser adquiridos em grandes quantidades e receber personalização de marca, embalagem e informações semelhantes às de medicamentos registrados no país.
Em alguns anúncios, o pedido mínimo chega a mil unidades. Há produtos anunciados por valores a partir de R$ 8,25 por caixa, enquanto determinadas canetas vazias e personalizáveis são vendidas por preços que diminuem conforme o volume da encomenda.
Um dos anúncios apresenta uma embalagem com cores e elementos visuais semelhantes aos utilizados pelo Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly. A caixa traz inclusive a indicação de dose de 15 mg e a expressão “once weekly”, que significa “uma vez por semana”. O anúncio informa que o nome da marca pode ser personalizado pelo comprador.
Outro produto é uma caneta injetora descartável branca, descrita como “totalmente personalizável”, com aparência semelhante à do Ozempic, fabricado pela Novo Nordisk.
Risco de falsificação preocupa especialistas
Embora a comercialização desses materiais, isoladamente, não seja considerada uma infração pelas autoridades consultadas, especialistas alertam que os produtos podem facilitar a produção clandestina de medicamentos falsificados.
A endocrinologista Maria Edna de Mello, do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da USP, afirma que canetas produzidas fora da cadeia oficial podem ser contaminadas, principalmente por bactérias.
Segundo a especialista, caso o conteúdo seja apenas uma solução sem princípio ativo, o principal prejuízo seria financeiro. Já uma eventual contaminação pode provocar infecções, feridas e até necrose.
Além disso, os efeitos podem ser imprevisíveis quando não é possível saber qual substância foi colocada dentro do dispositivo.
Dados da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) apontam que a participação do comércio eletrônico e das redes sociais na distribuição de produtos ilegais aumentou nos últimos anos. Segundo a entidade, esses canais representavam cerca de 8% dos produtos ilegais que chegavam aos consumidores brasileiros antes da pandemia. Em 2026, a estimativa é de aproximadamente 36%.
A associação também estima que medicamentos ilegais correspondam a cerca de 20% do mercado total de remédios no Brasil. Em 2025, as perdas relacionadas a medicamentos falsificados foram estimadas em mais de R$ 4,6 bilhões.
Diferentes tipos de irregularidades
Segundo a ABCF, as falsificações envolvendo canetas emagrecedoras podem ocorrer de diferentes formas. Uma delas consiste na reprodução de embalagens e rótulos semelhantes aos originais, mas com substâncias diferentes no interior, incluindo insulina ou até soluções salinas.
Também há casos relacionados à manipulação industrial irregular de substâncias como semaglutida e tirzepatida. Outra situação envolve substâncias que ainda não possuem registro para comercialização, como a retatrutida, que permanece em fase experimental.
Em setembro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública realizou uma audiência pública em Brasília para discutir a comercialização de produtos irregulares em plataformas digitais. Participaram representantes do governo, órgãos reguladores, empresas de tecnologia, setor produtivo e entidades de defesa do consumidor.
Novo Nordisk orienta compra em canais autorizados
A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, afirmou que sua principal preocupação é a segurança dos pacientes e recomendou que medicamentos sejam adquiridos somente por canais autorizados e aprovados pelas autoridades reguladoras.
A empresa também destacou a importância da qualidade e do respaldo científico para garantir a segurança e a continuidade dos tratamentos.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, foi procurada para comentar a comercialização dos produtos, mas não havia apresentado posicionamento até a publicação da reportagem.
Anvisa e Receita dizem que fiscalização depende de irregularidade concreta
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que a comercialização de embalagens e rótulos, por si só, não está sob sua fiscalização direta e que não existe uma regra específica que proíba a venda de caixas personalizáveis.
Segundo a agência, uma eventual infração sanitária precisa ser analisada de acordo com o caso concreto. A Anvisa também afirmou que os anúncios analisados se referem, aparentemente, a produtos industrializados comercializados em uma plataforma estrangeira, o que, em princípio, estaria fora de seu escopo de fiscalização.
A Receita Federal adotou posicionamento semelhante. O órgão afirmou que os anúncios, isoladamente, não permitem concluir que os materiais serão utilizados para falsificação de medicamentos e que ações de fiscalização dependem da existência de indícios concretos de irregularidade.
Especialistas e entidades do setor farmacêutico, entretanto, defendem uma atuação preventiva para identificar possíveis cadeias de falsificação antes que os produtos cheguem aos consumidores.
Como identificar uma caneta de emagrecimento irregular?
Medicamentos para emagrecimento devem ser comprados somente em estabelecimentos regularizados e por meio de canais autorizados.
O consumidor deve verificar se o medicamento possui registro ou processo regular na Anvisa e conferir informações como lote, validade, fabricante e integridade da embalagem.
Em caso de dúvida sobre a procedência de uma caneta, a recomendação é não utilizar o produto e procurar orientação de um profissional de saúde ou dos canais oficiais das autoridades sanitárias.


